Captulo 12

IDENTIFICAO E AQUISIO DO PAPEL MASCULINO E FEMININO

IDENTIFICAO 
O construto identificao tem um papel central em vrias teorias de desenvolvimento da personalidade.  
atravs da identificao que a criana assimila os valores e atitudes da cultura em que vive, para assumir o seu 
papel na sociedade. Identificao pode ser definida como a tendncia de uma pessoa para reproduzir as 
aes, atitudes ou respostas emocionais de modelos reais ou simblicos (Bandura e Walters, 1963, p. 89). 
Esses autores consideraram, na essncia, identificao e imitao como o mesmo fenmeno, no havendo 
necessidade de se distinguir entre os dois construtos, embora outros autores o faam (Mowrer, 1950; 
Lazowick, 1955; Osgood, Suci e Tannenbaum, 1957). 
Grande parte do que tem sido escrito a respeito de identificao  oriundo da teoria psicanaltica, embora mais 
recentemente psiclogos da corrente de aprendizagem social (behaviorismo estmulo-resposta aplicado a 
problemas mais complexos do desenvolvimento da personalidade) tenham dado bastante destaque ao assunto 
(Mowrer, 1950; Sears, 1957, e outros). 
Parte deste captulo foi reproduzido do artigo: ldentificaO: principais hipteses, da prpria autora, publicado em Arquivos Brasileiros de Psicologia, 
1968, 3,9-23. 
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Em seus primeiros trabalhos, Freud (1925) refere-se  identificao anacltica, que ocorre quando uma me 
gratificadora comea a retirar ou reter recompensas que dantes incondicionalmente dispensava, nos 
primeiros meses de vida.  medida que a criana vai crescendo, comea o processo de socializao, e a me j 
no gratifica todos os desejos da criana. A algumas coisas ela diz no, ou mostra desaprovao. A ameaa 
de perda do objeto de amor motivaria a criana a introjetar o comportamento e qualidades da me, assim se 
identif icando com ela. 
Mais tarde, Freud (1949) fala de identificao defensiva ou identificao com o agressor, que  
relacionada com a hiptese edipiana. Anna Freud (1946) tambm trata extensiva- mente deste assunto. 
Segundo a hiptese de identificao com o agressor, o menino, tendo inveja do pai, identifica-se com ele a fim 
de obter as gratificaes que a me dispense ao pai e de evitar o castigo. Anna Freud (1946) fala da 
identificao com o agressor como uma forma de evitar o medo. Ilustra o processo com o caso de uma menina 
que explicou ao irmo como tinha superado o medo de fantasmas, fingindo que ela prpria era o fantasma, 
agindo e gesticulando como o fantasma. 
Bandura e Walters (1963), dois psiclogos da corrente de aprendizagem social, criticam tal hiptese de 
identificao com o agressor. Enquanto Freud explica o fato de um menino imitar as caretas e trejeitos da 
professora que o castigava, como identificao com o agressor a fim de reduzir ansiedade, Bandura e Walters 
(1963) acreditam que os colegas provavelmente estariam achando graa da imitao, assim reforando a 
atitude do menino, de modo que no se poderia dizer que a identificao ou imitao teria a finalidade de 
reduzir ansiedade. 
Bandura e Walters (1963) tambm criticam a interpretao que Bettelheim (1943) d s reaes de prisioneiros 
em campos de concentrao nazistas, nos quais alguns prisioneiros imitavam os guardas, como evidncia de 
identificao defensiva. Esses autores acreditam que os prisioneiros que se identificavam com os guardas 
nazistas, imitando seus comportamentos e atitudes, no estavam procurando identificar-se com o agressor a 
fim de reduzir ansiedade, pois o Jomportamento imitativo poderia at ser causa de punio; mas, sim, que esses 
fatos poderiam ser mais bem explicados por meio da teoria do 
poder social, que ser explicada adiante. Segundo ela, os prisioneiros estariam imitando os agentes 
do poder, os controladores dos reforos (prmios, recompensas ou gratificaes). Alm disso, 
apenas em pequena minoria os prisioneiros se identificavam com os guardas. A imitao de uma 
elite poderosa  tpica de pessoas com alta mobilidade social ascendente, que imitam os superiores 
apesar da desaprovao por parte dos membros do grupo a que pertenam. H tambm evidncia 
emprica de que crianas imitam os pais agressivos ou outros modelos em situaes em que no haja 
ameaa (Bandura, Ross e Ross, 1961). O sucesso do modelo a ser imitado parece ser um dos 
fatores mais importantes na ocorrncia da identificao. 
Os primeiros tericos da corrente da aprendizagem social que tentaram traduzir conceitos 
psicanalticos em termos de psicologia da aprendizagem tambm basearam suas explicaes de 
identificao em conceitos semelhantes aos de identificao anacltica (Mowrer, 1950; Sears, 1957), 
ou identificao defensiva (Whiting, 1959, 1960). 
Mowrer (1950) d especial importncia  identificao anacltica, embora no negue a existncia de 
identificao defensiva. Mowrer, por exemplo, explica a aprendizagem da linguagem dos pssaros 
falantes em termos de identificao anacltica. Na primeira fase da aprendizagem, o treinador deve 
gostar do pssaro, cuidar dele, trazer gua e alimento (reforos primrios), de modo que, por estar 
associada com a reduo dessas necessidades primrias (por continuidade), a presena do treinador 
adquire um valor positivo, tornando-se reforo secundrio. Mowrer afirma que  razovel supor-se 
que o pssaro gostaria de reproduzir estmulos associados com o treinador, especialmente em sua 
ausncia. O pssaro pode emitir sons, e se acontecer que, casualmente, produza um som semelhante 
 voz do treinador, este som se tornaria, por generalizao, um reforo secundrio. Mowrer chama 
esta teoria de autstica, porque o reforo  auto-administrado. Parece negligenciar o efeito de 
reforos dispensados por outrem, tais como a expresso de satisfao que o treinador 
provavelmente exibe quando o pssaro imita a sua voz. Mowrer generaliza o processo para a 
identificao nos seres humanos. Para que haja identificao,  preciso que a pessoa amada se 
ausente, pois quando h ameaa de perda do objeto de amor, a criana se identifica com ele a fim 
de ter presente o objeto gratificado. Uma conse 272 
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qncia dessa teoria  a explicao de Mowrer quanto  escolha de amor heterossexual, oposta  de Freud. 
Freud considerava a escolha do objeto de amor como conseqncia da situao edipiana: a criana ama o 
genitor do sexo oposto e identifica-se com o genitor do mesmo sexo a fim de resolver o conflito. Mowrer 
considera a escolha do objeto de amor como subsidiria  identificao, enquanto Freud considera a 
identificao como subsidiria  escolha do objeto. Assim, para Mowrer, a criana primeiramente se identificar 
com o genitor do mesmo sexo e, em conseqncia, passar a gostar do mesmo objeto de amor dessa pessoa, 
isto , o genitor do sexo oposto. 
Para Freud, como decorrncia dessa hiptese, o desenvolvimento psicossexual dos meninos  mais facilmente 
explicado que o das meninas, pois a me  o primeiro objeto de amor. Freud no esclarece bem por que as 
meninas escolheriam o pai como objeto, se  com a me que tm contacto, e dela que recebem as gratificaes, 
da mesma forma que os meninos. Para Mowrer, primeiramente as crianas de ambos os sexos identificam-se 
com a me. Mais tarde, as meninas escolhem um objeto de amor masculino, mas no mudam o objeto de 
identificao. Mowrer acredita que sua hiptese explica melhor a homossexualidade do que a hiptese de 
Freud. Freud atribui a homossexualidade a uma ligao muito grande do menino com a me, porm como se 
explica que o objeto de amor seja masculino? Para Mowrer, a homossexualidade pode ser melhor explicada em 
termos de uma identificao muito grande, que leva o menino a escolher o mesmo objeto de amor que a me 
tem, bem como a assumir suas atitudes, preferncias, etc. 
Outro terico que se alinha com a hiptese anacltica  R. Sears (1957). Sua viso  bem semelhante  de 
Mowrer, como se v desta citao: 
Como o recm-nascido  incapaz de assegurar suas orincipais gratificaes primrias sem auxilio, sua me 
entra imediatamente em u.m sistema de ao interpessoal com ele. Ela est quase sempre presente quando 
suas necessidades primrias so gratificadas. Assim, suas aes tornam-se parte necessria da seqncia de 
comportamentos que leva  satisfao da criana. Suas aes so os eventos ambientais que se unem a seus 
atos em uma seqncia freqentemente reforada. Isto gradualmente produz na criana um sistema de 
necessidade secundria de dependncia da me. O resultado final  que a presena da me, seus gestos e 
atitudes, 
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bem como suas aes manipuladoras, tornam-se reforos secundrios para a criana. O passo seguinte  a 
incorporao da me no sistema de ao da criana. A identificao  auto-reforadora (p. 153). 
Sears tambm admite que a identificao seja responsvel pelo desenvolvimento de dois mecanismos 
fundamentais, conscincia ou controle interno, e adoo de um comportamento adequado ao sexo. 
As hipteses de Sears, Mowrer, e ainda outros, so geralmente chamadas de hipteses de reforo secundrio. 
Outra hiptese sobre identificao, que tem recebido bastante ateno,  a de Whiting (1960), que a ela se 
refere como hiptese de inveja do status. Whiting assim a exprime: 
Se uma criana percebe que outrem possui um controle mais eficiente sobre recompensas (reforos) do que 
ela, se, por exemplo, ela v outras pessoas que recebam reforos de grande valor para ela, enquanto ela no 
os recebe, a criana invejar essa pessoa, e a imflar. 
Segundo essa hiptese, a criana no invejar o status da pessoa que lhe d os reforos, porque neste caso a 
prpria criana j ocupa o status privilegiado. Mas a criana invejar o status de pessoas que a privem de 
reforos que antes lhe eram dispensados e os gozem em sua presena. Se o mediador dos esforos priva a 
criana de um reforo e o d a uma terceira pessoa, esta terceira ocupar o status invejado, pelo que com ela  
que a criana se identificar. Este seria o caso na situao edipiana. 
Prediz-se que quando a criana inveja um status, ela tentar desempenhar o papel associado quele status. 
Entretanto, a sociedade prescreve papis definidos para idade e sexo. Um menino que inveje a me e, 
conseqentemente, se identifique com ela, no ser reforado por seu comportamento feminino explcito, e isso 
conduzir a conflitos. O menino pode continuar a exibir comportamento feminino, apesar dos reforos 
negativos; poder inibir o comportamento feminino, ainda que continue a t-lo implicitamente; ou ento 
encontrar um modelo masculino com que se identifique. Whiting, Kluckhohn e Anthony (1958) afirmaram que 
os ritos de iniciao para adolescentes, em tribos primitivas, servem  finalidade de mudar a identifica275 
A 
o sexual, atingindo certos objetivos como ruptura da ligao com a me, preveno da revolta 
contra os homens e identificao com o papel masculino. 
Em outros estudos, Whiting (1959) discute condies de educao infantil que propiciam o 
desenvolvimento da conscincia. Uma das hipteses desse estudo  que maior identificao e culpa 
devem existir em sociedades de famlias nucleares, a seguir em famlias mongamas extensas, 
depois em sociedades polginas; ser menor em sociedades em que a rela. o me-filho seja 
exclusiva. Segundo a hiptese de inveja do status, a criana deveria identificar-se e, portanto, 
aceitar os valores morais da pessoa rival de sucesso, a qual receber os reforos da criana menos 
em todas as sociedades em que a relao me-filho seja exclusiva. Segundo a hiptese de inveja do 
status, a criana deveria identificar-se e, portanto, aceitar os valores morais da pessoa rival de 
sucesso, a qual receber os reforos que ela cobia, sem possuir. A criana competiria com o pai 
por amor, afeio, comida, cuidado e, mesmo, gratificao sexual da me. Em situaes em que o 
pai tenha sucesso, a criana se identificar mais facilmente com ele. A rivalidade mxima entre pai 
e criana dever ocorrer em famlias nucleares, um pouco menos em famlias mongamas extensas, 
a seguir em polginas; ser menor em famlias me-criana exclusivamente. A hiptese foi 
confirmada; porm, a medida de culpa usada pelo autor  de validade discutvel. Whiting usou como 
indcio de culpa o grau em que uma pessoa a si prpria se culpa por doenas. 
A hiptese do poder social tem sido mais salientada em psicologia social que nas teorias de 
identificao. No entanto, Maccoby (1959), Mussen e Distler (1959) e Parsons (1958) aplicaram-na 
 compreenso do fenmeno de identificao. 
Em Psicologia do Desenvolvimento, desempenho de um papel refere-se ao processo pelo qual, 
atravs da imitao de comportamentos dos adultos, a criana adquire o domnio de certos padres 
de comportamento que dever possuir quando adulto (Maccoby, 1959). 
Mussen e Distler (1959), baseados em Parsons (1955) e outros autores, consideram que a 
identificao depende do poder do modelo da identificao, uma combinao de seu valor positivo 
(reforo) e de seu potencial punitivo. Mussen e Distler 
(1959) tentam avaliar a validade de trs hipteses sobre a identificao: a) a hiptese de reforo 
secundrio, que afirma que a identificao com o pai ocorre porque a imitao de suas respostas 
adquire um valor de reforo secundrio, se o pai for percebido como fonte de reforos positivos; b) 
a hiptese de identificao com o agressor, que sustenta que os meninos identificam-se com o pai, 
na resoluo da situao edipiana, a fim de reduzir o medo do pai e; c) a hiptese de poder social, 
que afirma que a identificao depende da percepo do pai como uma fonte de reforo tanto 
positivo como negativo (punio). De acordo com a hiptese de reforo secundrio, os meninos 
muito identificados com o pai (muito masculinos) deveriam perceber o pai como gratificador e 
afetuoso; segundo a hiptese de identificao com o agressor, os meninos muito masculinos 
deveriam perceber o pai como punitivo; e, segundo a teoria de poder social, os meninos muito 
masculinos deveriam perceber o pai tanto como gratificador como punitivo. Os sujeitos da pesquisa 
foram meninos de jardim de infncia. Medidas de masculinidade foram obtidas atravs da lT Scale 
of Children (Brown, 1956), mtodo projetivo que usa a escolha de brinquedos e atividades 
atribudas a personagens de desenhos no-estruturados, quanto ao sexo da figura. Medidas de 
percepo dos pais foram obtidas tambm com mtodos projetivos, mediante bonecos em uma 
situao familiar incompleta, de modo que a criana possa representar o pai e a me como 
gratificadores ou punitivos. Valores foram estabelecidos para a gratificao, o potencial punitivo e o 
poder do pai e da me. O escore de poder consistiu na soma dos escores obtidos em gratificao e 
punio. A capacidade de gratificao ou punio da me no diferenciou significantemente os 
meninos muito masculinos dos pouco masculinos; mas os meninos muito masculinos percebiam o pai 
como mais gratificador que os pouco masculinos (p .02); os meninos muito masculinos tambm 
perceberam o pai como mais punitivo que os meninos pouco masculinos (p .06); e, finalmente, os 
meninos mais masculinos perceberam o pai como mais poderoso que os pouco masculinos (p .007). 
Os dados coletivos confirmaram as trs hipteses, porm Mussen e Distler acreditam que a hiptese 
do poder social  a que melhor integra esses resultados, j que tanto gratificao quanto potencial 
punitivo esto significantemente associados com masculinidade no filho. 
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Heilbrun e Hail (1964) realizaram o que eles dizem seria o primeiro teste direto da hiptese do poder 
social, em termos do ndice mais crtico de identificao, isto , a semelhana entre os pais e os 
filhos. Verificaram ento as relaes entre o poder social atribudo  me e o grau de similaridade 
dos filhos e filhas com a me. Um objetivo secundrio  examinar as relaes entre o poder social 
atribudo  me e a capacidade de gratificao e punio da me. Os sujeitos foram alunos 
universitrios. Baseados na teoria do poder social, esses autores fizeram as seguintes predies: 
1) Existe uma relao positiva entre a mediao de reforos da me (tal como percebida pelos 
filhos) e a identificao com a me, por parte de filhos e filhas. 
2) Crianas de um e de outro sexo devem identificar-se mais com mes que sejam tanto 
gratificadoras como punitivas, que com mes que no possuam esses atributos. 
3) Como a mediao de reforos negativos, segue-se que a me a quem seja atribudo maior poder 
social tender a punir mais do que aquela que  percebida como menos poderosa. 
Os resultados f o r a m consistentes com a hiptese do poder social, indicando que quanto mais os 
filhos normais, de qualquer dos sexos, percebem a me como predisposta a controlar seu 
comportamento durante seu desenvolvimento, tanto mais tendero a escolh-la como modelo 
principal para identificao. As concluses de Heilbrun e Hali so basicamente as mesmas que as 
de Mussen e Distler, mas  interessante notar que Heilbrun e HaIl usaram estudantes universitrios 
dos dois sexos, estudando sua identificao com as mes; ao passo que Mussen e Distler usaram 
meninos de jardim de infncia, estudando sua identificao com os pais. 
Bandura, Ross e Ross (1963) tambm apresentam um teste comparativo das hipteses de reforo 
secundrio, inveja do status e poder social. Foi feito com grupos de trs pessoas, representativo da 
famlia nuclear. Os sujeitos foram crianas de curso maternal. Em uma condio experimental, um 
adulto assumiu o papel de controlador de reforos e dispensou reforos positivos a outro adulto, o 
consumidor dos reforos. A criana (sujeito) foi ignorada. Esta condio corresponde a um teste de 
hiptese de inveja do status. Na segunda condio experimen tal 
um adulto foi o controlador dos reforos e a criana (sujeito), o recebedor. O outro adulto foi 
ignorado. Depois do tratamento experimental, os adultos (modelos) exibiram diferentes padres de 
comportamento, e o grau em que as crianas imitaram os comportamentos de cada modelo foi 
determinado. Os resultados indicaram que as crianas identificaram-se com a fonte (o controlador) 
dos reforos e no com o competidor. Bandura, Ross e Ross afirmam que os resultados confirmam 
a teoria do poder social. 
Parsons (1958) considera que a identificao abrange comportamentos que a criana aprende no 
contexto de desempenho de um papel social recproco, de interao com os pais. Assim, os 
comportamentos que a criana imita no seriam necessariamente os do adulto-modelo, mas os 
comportamentos suscitados e reforados pelo adulto, numa interao social. Para Parsons, tanto o 
menino quanto a menina formam inicialmente uma identificao com a me, e que perder, 
independente de sexo. A seguir identificam-se com o pai, o qual forma relaes diferentes com o 
filho e com a filha, fornecendo assim a base para a aprendizagem do papel masculino ou feminino 
das crianas de um e de outro sexo. 
Parsons diz ainda que a diferena entre masculinidade e feminilidade  uma diferena de orientao 
instrumental ou expressiva. O papel feminino expressivo caracteriza-se por emitir respostas 
gratificadoras a fim de receber respostas gratificadoras. O papel instrumental masculino, em 
contraste,  def inido como uma orientao do comportamento para objetivos que transcendem a 
realidade imediata. Assim  que a identificao com a me seria mais importante para o 
desenvolvimento da afetividade, ao passo que a identificao com o pai seria importante para o 
desenvolvimento da responsabilidade, tolerncia  frustrao, etc. Para Parsons, a me em geral  
capaz apenas do papel expressivo, ao passo que o pai  capaz de expressar os dois papis. O pai 
usa o papel expressivo principalmente quando lida com as filhas e o instrumental quando lida com os 
filhos. 
Heilbrun (1965), contudo, no acha necessria a hiptese de papis recprocos de Parsons e 
favorece uma hiptese de modelo, que prediz que as crianas aprendem os papis prprios do seu 
sexo, observando-os nos pais. A questo investigada por Heilbrun (1965) foi se os princpios de 
modelo tambm seriam teis para a predio do comportamento prprio do sexo, 
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admitindo que o pai  mais capaz de diferenciao de papis que a me, e que a distino entre expressivo e 
instrumental representa uma base til para a definio dos papis feminino e masculino. Esse autor chama a 
ateno para o fato de que essa investigao no pretende comparar a validade da hiptese de papis 
recprocos com a de modelo, pois no tem dados referentes  primeira. Baseado na hiptese de modelo, 
Heilbrun predisse que a distino dos papis masculino e feminino seria mxima quando houvesse 
identificao com um pai altamente masculino, porque ele seria capaz de fornecer um modelo instrumental para 
os meninos e um modelo expressivo para as meninas. Os dados confirmaram a hiptese. 
Entre os estudos sobre identificao, parece ainda digno de meno o de Jacobson (1954), que distingue entre 
identificao infantil e identificao de ego: 
Identificaes de ego so realsticas, enquanto resultam em mudanas permanentes do ego, que justificam 
um sentimento de ser, parcialmente pelo menos, como o objeto de amor. Identificaes infantis so mgicas 
por natureza; representam uma fuso temporria parcial ou total do eu, com as imagens do objeto, 
fundada em fantasias, ou mesmo na crena temporria de ser um com o objeto, ou transformar-se no objeto, 
sem considerao pela realidade. 
Bronson (1959) supe que identificaes de ego suriam de uma relao de apoio e aceitao entre pais e filhos, 
e que as identificaes infantis prevalecem quando a relao seja marcada por conflito. As seguintes predies 
foram feitas a respeito de identificao com o papel masculino, baseada em identificaes de ego ou infantis: 
1. Identificaes do ego, com um pai ajustado, devero resultar em: 
a) Aceitao, em nveis implcitos, de atitudes e necessidades masculinas. 
b) Comportamento masculino explcito, caracterizado por moderao. 
c) Semelhana moderada entre o comportamento masculino do pai e do filho. 
II. Identificaes infantis com um pai desajustado devero resultar em: 
a) Rejeio de atitudes e necessidades masculinas, em nveis implcitos. 
b) Comportamento explcito extremamente masculino ou extremamente no-masculino. 
c) Alto grau de semelhana ou de dessemelhana entre o comportamento masculino do pai e do filho. 
Os sujeitos foram pr-adolescentes do sexo masculino. Todas as hipteses tiveram confirmao. 
Ausubel (1952) distingue entre satelizao, em que os valores dos pais so aceitos por uma lealdade pessoal 
aos pais com quem se tenha uma boa relao, e incorporao, na qual os valores parentais so aceitos por 
sua capacidade objetiva de valorizar o status do ego, sem a formao de um lao emocional ao modelo. 
Embora o fenmeno de identificao parea ter grande importncia na adolescncia, poucos so os estudos 
empricos sobre o assunto nessa fase. Carison (1963) investigou a estrutura pessoal e identificao em pr-
adolescentes, adotando o esquema de satelizao versus incorporao de Ausubel. Os resultados indicaram 
que crianas identificadas com pais que do apoio possuam maior auto-aceitao, eram mais aceitas pelos 
colegas, e menos dependentes das relaes sociais. Outro resultado interessante deste estudo foi que os 
padres de identificao diferencial com genitores do mesmo sexo, ou do sexo oposto, no se correlacionam 
significantemente com medidas de personalidade das crianas. Carlson interpretou este resultado como 
confirmador da sugesto de Slater (1961), assim enunciada: 
faz muito pouca diferena com que genitor a criana mais se identifique. Uma identificao pessoal 
adequada com ambos os pais pressupe um clima satisfatrio para que a criana faa a escolha correta, e a 
prpria escolha ser feita atravs da internalizao das normas culturais dos pais! (p. 123). 
G. W. Bronson (1959) realizou um estudo sobre difuso de identidade na adolescncia, baseado na noo de 
Erikson (1956), da adolescncia como fase de crise de identidade, ou na 
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qual os indivduos lutam por atingir uma redefinio final do eu. A difuso de identidade  definida 
como a experincia de incerteza entre as muitas imagens do eu, derivadas de autoconceitos 
anteriores, e as imagens ideais, entre as quais ele prprio verdadeiramente se reconhea. No estudo 
de G. W. Bronson (1959), quatro caractersticas de difuso de identidade foram levadas em 
considerao: 
a) O eu atual  menos enraizado em identificaes anteriores. 
b) Sentimentos sobre o eu tm maior variabilidade no tempo. 
c) A noo do eu  menos firmemente concebida em termos de modos interpessoais de 
comportamento. 
d) Um estado de ansiedade elevada prevalece. 
Medidas destas caractersticas foram obtidas atravs de julgamentos de entrevistas e de tcnicas de 
diferencial semntica. Os sujeitos eram alunos universitrios. Os resultados revelaram que os 
sujeitos considerados com pouca difuso de identidade apareceram aos avaliadores da entrevista 
como tendo um sentido de eu estvel enraizado em identificaes anteriores, com pouca 
ansiedade. Nas tcnicas de diferencial semntica, eles se revelaram relativamente seguros a 
respeito de suas caractersticas pessoais dominantes e demonstraram estabilidade temporal em seus 
sentimentos sobre o eu. As caractersticas opostas foram encontradas no grupo com alta difuso 
de identidade. 
Heilbrun e Fromme (1965) investigaram a relao entre identificao com os pais e a) 
masculinidade-feminilidade do modelo (pai ou me); e b) a ordem de nascimento, sexo e nvel de 
ajustamento dos filhos. Os sujeitos eram alunos universitrios. Os resultados indicaram que rapazes 
ajustados tendem a identificar-se mais com modelos paternos masculinos, ao passo que rapazes 
desajustados tendem a identificar-se com modelos menos masculinos. Moas ajustadas 
identificaram-se com mes pouco femininas e moas desajustadas identificaram- se com mes 
muito femininas. Esses resultados opostos para moas e rapazes talvez se expliquem em termos de 
problemas scio-culturais relativos  posio da mulher na sociedade ocidental moderna. O homem 
masculino  o ideal indiscutivelmente aceito, mas a mulher extremamente feminina tem um papel 
que entra em conflito com o da mulher universitria, que tra balha 
papel tambm valorizado. Os resultados deste estudo tambm indicaram que filhos nicos do sexo 
masculino eram mais identificados com suas mes do que rapazes que tinham outros irmos e irms. 
Filhas mais velhas so mais identificadas com a me que as filhas nascidas depois e as mais moas. 
Acima foram expostas as principais hipteses a respeito de identificao, bem como vrios estudos 
empricos. Entre as diversas explicaes sugeridas, a hiptese de poder social parece ser a que 
melhor integra os dados, sendo tambm a que apresenta maior evidncia emprica para suas 
afirmaes, inclusive evidncia do tipo propriamente experimental, como os estudos de Bandura, 
Ross e Ross (1963) e de Mussen e Distler (1959). As dicotomias postuladas por Ausubel, Siater, 
Jacobson e outros so interessantes, mas de pouca utilidade ou verificabilidade. 
A identificao  um fenmeno considerado de grande importncia na infncia, quando h a 
formao e aquisio de valores, e tambm na adolescncia, quando se d uma redefinio da 
personalidade. No entanto, a maior parte das hipteses, e mesmo estudos empricos, se concentram 
no estudo da identificao na infncia. Os estudos que se referem  identificao em sujeitos 
adolescentes, em geral, realmente investigam a identificao infantil, de modo retrospectivo. 
Portanto, o campo est praticamente aberto a estudos sobre identificao na adolescncia, que 
respondam a perguntas como estas: Quais so os novos modelos de identificao por quem os 
adolescentes substituem os pais? (colegas, heris idealizados, etc.). 
 interessante notar que os estudiosos do assunto, em geral, usam o termo identificao quando se 
referem a crianas, e auto-identidade,  adolescncia. Esta diferena em terminologia talvez queira 
indicar que a identificao na infncia  um processo mais passivo, ao passo que, na adolescncia, 
ser mais ativo, pessoal, menos dependente dos modelos. Mas no momento  impossvel afirmar-se 
se esta diferena realmente existe ou se  fictcia, tratando-se apenas de uma substituio de 
modelos. Neste caso, seria interessante investigar-se que tipo de modelo o adolescente coloca em 
lugar dos pais: o mode o poderoso, o punitivo, o invejado, o gratificador? Em que medida diferem os 
novos modelos e os pais? Talvez quando chegue a adolescncia, os valores dos pais j tenham sido 
to bem assimilados que o adolescente v escolher novos modelos que possuam valores semelhantes 
aos dos pais. 
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Se a hiptese de poder social se firmar como a explicao mais plausvel para o fenmeno de 
identificao, ser interessante investigar-se qual a combinao tima de capacidade gratificadora e 
punitiva do modelo, que conduza a melhor identificao. O poder social  definido como a soma de 
potencial gratificador e punitivo do modelo. No entanto, se houver grande desequilbrio entre os dois 
potenciais, gratificador e punitivo, talvez as conseqncias sejam diferentes.  possvel que o 
potencial punitivo seja mais importante na infncia, pois a identificao com o agressor parece ser 
do tipo mais primitivo e emocional, ao passo que na adolescncia, com o desenvolvimento maior do 
pensamento abstrato e racional, este componente decresa em importncia. 
Em suma, vemos que o fenmeno de identificao tem recebido bastante ateno da parte de 
psiclogos, pois dela parece depender grande parte da formao da personalidade, principalmente no 
que diz respeito  aquisio de atitudes e valores do papel masculino ou feminino. 
AQUISIO DO PAPEL MASCULINO E FEMININO 
Como vimos na seo anterior, em que foram revistas as vrias teorias de identificao, o fenmeno 
de identificao  de grande importncia para compreendermos o processo de aquisio do papeI 
masculino e feminino. A maioria das culturas espera que homens e mulheres tenham papis e 
comportamentos diferentes na sociedade. As crianas aprendem cedo quais so os padres de 
comportamento masculinos e femininos, embora os padres da criana pr-escolar sejam menos 
delineados do que os da criana mais velha ou do adulto. Esses padres esto de acordo com a 
classificao de Parsons (1955), do papel masculino como instrumental e do feminino como 
expressivo. Espera-se que os homens sejam fortes, independentes, agressivos, competentes, 
competitivos e dominantes. Espera-se que as meninas sejam mais dependentes, sensveis, afetuosas 
e que suprimam impulsos agressivos e sexuais. Tolera-se mais a expresso do afeto em mulheres do 
que em homens (Bennett e Cohen, 1959). Embora esses papis paream antiquados, pesquisas 
recentes comprovam a existncia desses esteretipos em crianas de primeiro grau (Hartley, 1960) 
e em vrias subculturas como demonstrou DAndrade (1966). 
A grande controvrsia neste campo de pesquisa diz respeito novamente ao problema de nativismo 
versus ambientalismo. Nos anos pr-cientficos da Psicologia acreditou-se pia- mente na base 
constitucional e nos instintos como determinantes das diferenas psicolgicas de sexo em 
comportamentos e atitudes. Freud (1950) veio corroborar essa posio, atribuindo  mulher papis 
diferentes e inferiores ao homem, como conseqncia das distines anatmicas e dos rumos 
conseqentes tomados pela libido ou instinto sexual. O behaviorismo, e em particular no campo da 
Psicologia do Desenvolvimento a teoria da aprendizagem social, veio contra essas noes, com sua 
viso da natureza aprendida dos comportamentos sociais. Assim, passou-se a considerar que os 
comportamentos adequados ao sexo so aprendidos atravs de imitao (ou identificao) e 
reforamento. A criana imita os comportamentos de adultos significantes de seu meio. Ela recebe 
reforos positivos quando imita ou manifesta comportamentos adequados ao sexo, e no recebe 
aprovao, ou s vezes  punida por comportamentos inadequados. Por exemplo, a menina que 
empurra um carrinho de boneca, imitando a me ou outros modelos femininos que empurram 
carrinhos de beb, geralmente recebe aprovao sob formas de ateno, olhares carinhosos, 
comentrios como Que gracinha!, etc., mas se o menino faz o mesmo,  rapidamente 
desencorajado: Homem no faz isso!, Vai jogar futebol!, e assim por diante. Desta forma so 
moldados os esteretipos relativos ao papel masculino e feminino e so adquiridos pelas crianas os 
comportamentos adequados.  importante notar que, na socializao das crianas, a menina est 
geralmente mais exposta a modelos femininos (mes, av, bab, professora) do que o menino  
exposto a modelos masculinos, uma vez que tipicamente o pai est ausente a maior parte do tempo 
trabalhando fora. Assim, o menino precisa aprender o papel masculino sem observar muito modelos 
masculinos. A aprendizagem  feita mais baseada em reforos, isto , quando o menino apresenta 
algum comportamento tipicamente masculino  elogiado, se apresenta um comportamento feminino  
criticado, ao passo que a menina aprende por imitao e tambm por meio de reforos. Isto deveria 
fazer com que as meninas tivessem mais facilidade em adquirir o papel adequado ao sexo do que os 
meninos. As meninas tm o modelo de identificao mais disponvel; porm, h mais presso social 
para que os meninos sejam masculinos do que para 
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que as meninas sejam femininas (Brown, 1958; Hartley, 1959; Lynn, 1961). Tolera-se mais a menina pouco 
feminina do que o menino pouco masculino. Em vista do papel masculino ser mais prestigiado, no  
surpreendente que os meninos desenvolvam uma preferncia pelo papel masculino mais cedo do que as 
meninas desenvolvem a preferncia pelo papel feminino, conforme foi verificado nas pesquisas de Brown 
(1958) e Hetherington (1965), em que a medida utilizada foi a escala IT descrita anteriormente. Outras pesquisas 
verificaram que meninas desenvolvem rapidamente preferncias femininas entre as idades de trs a quatro 
anos (Hartup e Zook, 1960), mas que uma mudana no sentido de preferncia por brincadeiras masculinas 
ocorre entre quatro e dez anos (Brown, 1957), o que poderia ser atribudo  percepo que a menina nessa fase 
tem do prestgio maior do papel masculino. Esses padres de desenvolvimento das preferncias por papis 
masculinos e femininos so diferentes nas classes sociais baixa e mdia. Rabban (1960) verificou que a maior 
parte dos meninos de classe baixa mostrava uma preferncia acentuada por brinquedos apropriados ao sexo 
masculino por volta da idade de quatro ou cinco anos, que as meninas de classe baixa e os meninos de classe 
mdia preferiam os brinquedos apropriados a seu sexo mais ou menos por volta de sete anos e que as meninas 
de classe mdia o faziam por volta de nove anos. 
Estas diferenas de classe podem ser atribuidas  maior clareza dos papis sexuais, menos permissividade para 
com a violao desses padres, e modelos masculinos e femininos mais estereotipados que apresentam os pais 
de classe baixa. O pai de classe baixa geralmente trabalha em ocupaes que envolvem trabalho pesado, 
tipicamente masculinas, enquanto que a me se restringe a cuidar da casa e dos filhos, ou, se trabalha fora, isto 
se faz em ocupaes que envolvem cozinhar, lavar, costurar, etc. J na classe mdia, o pai cada vez mais 
participa do cuidado dos filhos, de idas ao supermercado, e a me muitas vezes trabalha fora em ocupaes 
no exclusiva- mente femininas.  importante notar que esses estudos de diferenas de classe social foram 
realizados nos Estados Unidos, e no sabemos se os mesmos padres de comportamento tpicos a uma e outra 
classe social so tambm tpicos s classes sociais da sociedade brasileira. Padres de interao familiar nas 
diversas classes sociais ainda constituem um problema a ser investigado em futuras pesquisas. 
Inmeras pesquisas tm sido levadas a efeito com o objetivo de estabelecer relaes entre 
caractersticas maternas e paternas e a masculinidade ou feminilidade dos filhos. Segundo 
Hetherington (1970), os trs construtos mais estudados com relao  masculinidade e feminilidade 
das crianas tm sido a afetuosidade, a dominncia e a agresso dos pais. H bastante evidncia 
de que a afetuosidade do genitor do mesmo sexo facilita a identificao e aprendizagem do papel 
masculino e feminino (Mussen e Distier, 1959; 1960; Mussen e Rutherford, 1963). Tambm os 
estudos de modelao confirmam que as crianas imitam mais um modelo afetuoso ou gratificante 
do que um modelo distante e frio (Bandura e Huston, 1961; Hetherington e Frankie, 1967). 
Como vimos ao discutir as teorias de identificao, o poder dos pais  outra varivel importante. 
Meninos que percebem o pai como competente e como poderoso dispensador de reforos positivos 
e tambm de punies so mais masculinos do que os meninos que no percebem o pai dessa forma 
(Hetherington, 1965). 
A dominncia da me  uma varivel que prejudica o desenvolvimento da masculinidade em 
meninos, embora no afete muito as meninas. J a dominncia do pai no prejudica o 
desenvolvimento das meninas. Famlias em que o pai est ausente, seja permanentemente, como nos 
casos de morte, separao, divrcio, seja temporariamente como nos casos de guerra, ou devido  
natureza da ocupao dos pais, assemelham-se s famlias em que a me  dominante: Os meninos 
separados do pai na idade pr-escolar so geralmente menos agressivos, menos dependentes e 
menos interessados em es- portes agressivos do que os meninos criados com o pai presente 
(Hetherington, 1966; Stolz, 1954). Naturalmente, se outros modelos masculinos esto presentes, tais 
como irmo mais velho, tio, etc., estes efeitos podem no ser encontrados. 
Quanto  agresso dos pais e seus efeitos sobre a masculinidade e ou feminilidade das crianas, h 
poucos estudos e os resultados so um tanto inconsistentes. A punio por parte dos pais no est 
relacionada com feminilidade em meninas (Mussen e Rutherford, 1963). Bandura e Walters (1959) 
verificaram que os meninos adolescentes com pai punitivo e no afetuoso no se percebiam como 
semelhantes ao pai ou como o emulando. Ao que tudo indica, a situao pai punitivo e 
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agressivo no conduz  identificao do filho com o ai (como j vimos, a afetuosidade do modelo  
uma varivel importante), de forma que o filho no se torna muito masculino. 
As pesquisas mencionadas acima, efetuadas dentro do modelo behaviorista da teoria de 
aprendizagem social, indicam que a aquisio do papel masculino e feminino  basicamente uma 
questo de aprendizagem, dependendo de fatores ambientais de modelao e reforo. Mas esses 
resultados no elucidam totalmente a questo e a linha de pesquisa mais fundamentada na biologia e 
na fisiologia deixa bastante margem para se supor que fatores constitucionais desempenham um 
papel importante, pelo menos no que se refere  predisposio  aprendizagem de papis 
tipicamente masculinos ou femininos. 
A argumentao biolgica baseia-se substancialmente em estudos de animais. Vemos, por exemplo, 
que os papis da abelha e do zango, da formiga macho e da formiga fmea, do galo e da galinha, 
so diferentes. Harlow (1962) afirma que as diferenas de comportamento social e em 
comportamentos precursores dos comportamentos sexuais j so evidentes nos macacos Rhesus 
aos dois meses de idade sendo os machos mais agressivos. Harlow e Harlow (1965) tambm 
relatam diferenas de sexo em interao com companheiros, entre macacos Rhesus. Diferenas de 
sexo quanto ao comportamento em relao aos filhotes da espcie tambm foram observadas em 
vrias espcies de primatas (Schaller, 1963). No entanto, devemos lembrar aqui o ponto para o qual 
chama ateno Bandura (1973), discutido no captulo em que tratamos da agresso, de que o fato de 
determinados comportamentos estarem sob controle instintivo, ou dependerem mais de fatores 
genticos e constitucionais em animais, no implica necessariamente em que isto tambm ocorra no 
ser humano. 
Nos seres humanos, diferenas fisiolgicas entre homens e mulheres so reconhecidas h muito 
tempo. J em 1897, Geddes e Thomson falavam em diferenas de metabolismo, sendo as mulheres 
mais anablicas e os homens mais catablicos. H diferenas de concentrao de potssio 
(Anderson e Langham, 1959) que esto relacionadas com desenvolvimento muscular. Williams 
(1956) chama a ateno para uma interessante diferena muscular: A mulher tipicamente no atira 
uma bola da mesma forma que o homem. A mulher atira a bola de trs para a frente, verticalmente, 
apoiando o peso no p direito, ao 
passo que o homem atira a bola com um movimento horizontal, lateral, apoiando o peso sobre o p esquerdo. 
Goldberg e Lewis (1969) relatam que meninos de um ano de idade so mais ativos e tm um comportamento 
exploratrio mais desenvolvido do que as meninas. Os meninos so biologicamente mais vulnerveis. Calcula-
se que, para cada 100 meninas concebidas, so concebidos 120 meninos, porm, ao nascer, a proporo j  de 
100 para 105, apenas. No primeiro ano de vida, morrem 25/o mais bebs do sexo masculino do que do sexo 
feminino, em qualquer cultura. Nos Estados Unidos, a expectncia de vida  de 67 anos para homens e 73 anos 
para mulheres. Como essa diferena em expectncia de vida poderia ser atribuda a fatores ambientais (maior 
stress para o homem), foi estudada a expectncia de vida para monges e monjas enclausurados (com o mesmo 
grau de stress presumido) e a diferena ainda foi encontrada. Tambm so relatadas diferenas no sistema 
nervoso de homens e mulheres, que resultariam em diferenas de desempenho de vrias tarefas. Ford e Beach 
(1951) afirmam que o sistema nervoso central do homem  mais evoludo. Embora os testes de inteligncia 
sejam construdos de forma a no se obterem diferenas de sexo, Nash (1970) afirma que embora, quanto a 01 
total, no haja diferenas de sexo no Wechsler, estas aparecem nos subtestes. As meninas so geralmente 
superiores em fator verbal e memria. Torrance (1962) verificou que os meninos eram mais criativos do que as 
meninas. 
Meninos e meninas comeam na escola em igualdade de condies quanto  matemtica, mas, por volta dos 13 
anos de idade, as meninas comeam a ficar para trs e no conseguem mais alcanar os meninos. Muitas 
meninas sofrem de formas leves ou severas de fobia de matemtica e geralmente no tm confiana em sua 
capacidade para essa matria, no gostam dela e a acham mais difcil do que os meninos (Fennoma e Sherman, 
1977). 
Como parte de seu projeto sobre crianas precoces em matemtica, na Universidade Johns Hopkins, Camilla 
Benbow e Julian Stanley (1980) acompanharam durante cinco anos alunos de stima e oitava srie que se saam 
no percentil 2 ou 5 em testes de matemtica, isto , eram melhores do que 98 ou 95 por cento da populao 
nessa matria. As meninas, nesse grupo seleto, tiraram o mesmo nmero de cursos que os meninos, e tinham 
interesse em matemtica. No entanto, os meninos sa- 
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ram-se melhor que as meninas nos subtestes de matemtica do Scholastic Aptitude Test (teste 
utilizado para admisso s universidades norte-americanas).  um teste de aptido e no do que se 
aprende na escola. Os autores concluram que as meninas que tiram notas boas em matemtica 
estudam mais do que os meninos, os meninos tm mais facilidade para a matemtica. 
Diferenas de sexo em capacidade espacial tambm se tornam mais pronunciadas na adolescncia 
(Harris, 1979). A capacidade espacial  a capacidade de imaginar ou visualizar objetos em 
diferentes planos e perspectivas. A maioria dos estudos (resumidos em Maccoby & Jacklin, 1974) 
mostram que, iniciando na adolescncia, os rapazes se saem melhor do que as moas nos testes 
padronizados de habilidades espaciais (McGuinness, 1985). Os meninos desenham mapas mais 
exatos do ambiente familiar, como do campus universitrio, do que as meninas. Estas podem suprir 
mais detalhes, mas seu senso de distncia  freqentemente pobre e tendem a omitir atalhos e 
caminhos. Os meninos tambm so melhores em jogos de vdeo que requerem que o jogador 
antecipe onde aparecero imagens em movimento, seguindo-as com uma alavanca. A capacidade 
de lembrar objetos no espao e imaginar trs dimenses so teis na matemtica superior, 
especialmente na geometria. 
Esse descompasso na matemtica  a imagem reversa do descompasso entre meninos e meninas na 
leitura na infncia (McGuinness, 1985). Pelo menos um nmero trs vezes maior de meninos do que 
de meninas tm dificuldades de leitura. Por volta de 15 anos essa diferena desaparece. 
As diferenas de sexo em capacidade matemtica geralmente so atribudas  socializao. Alguns 
afirmam que, na nossa cultura, a matemtica  um domnio masculino. As meninas no devem 
preocupar suas cabeas bonitinhas com nmeros. Competir com os meninos num campo 
masculino  visto como agressivo e no feminino. Uma menina que se sobressai na matemtica 
pode pagar o preo disso em perda de popularidade. As diferenas de sexo aparecem na puberdade 
porque as meninas se tornam mais conscientes dos papis sexuais tradicionais e mais preocupadas 
com as impresses que fazem nos meninos (Tavris e Wade, 1984). 
Diane McGuinness (1985) questiona essa posio. Segundo ela, a socializao do papel masculino e 
feminino come- 
a no comeo da infncia e no na adolescncia. Se as meninas so ensinadas que a matemtica  
um campo masculino, por que elas se saem to bem em aritmtica quando so menores? Se elas 
acreditam que a competio no  feminina, por que competem tanto em biologia, histria, lnguas e 
outras matrias? 
Scarr, Weinberg e Levine (1986) argumentam que o fato de gmeos idnticos serem muito 
semelhantes quanto  capacidade espacial e aptido matemtica sugere que haja algum componente 
gentico ainda no identificado que explicaria as diferenas de sexo. Outra linha de especulao a 
respeito das diferenas de sexo apia-se na teoria de Piaget. Os meninos tendem a explorar o 
mundo em primeira mo, lidando com objetos, exercitando sua coordenao motora grossa. J as 
meninas, que so verbalmente precoces, baseiam-se mais nas palavras, i., na experincia de 
segunda mo. Assim, as meninas se baseariam em regras verbais na matemtica e os meninos no 
conhecimento sensrio-motor. A imaginao verbal poderia interferir negativamente na manipulao 
de equaes abstratas. 
Finalmente, como sugere McGuinness (1985), as meninas mostram desde cedo um maior interesse 
em pessoas. Os meninos mostram mais interesse em objetos. Quando se pede a meninas pequenas 
que contm uma histria em geral elas inventam histrias sobre pessoas. O que  interessante  que 
os meninos freqentemente inventam histrias sem pessoas. Os objetos os interessam mais. 
Enquanto os livros de aritmtica so cheios de exemplos do mundo real, com pessoas, os de lgebra, 
geometria e clculo no o so. Talvez as meninas fiquem para trs na matemtica por falta de 
interesse no material. 
Todas essas hipteses so especulativas. O que parece ficar claro  que muitos meninos acham a 
leitura difcil e a matemtica mais fcil, ao passo que as meninas acham a leitura mais fcil e a 
matemtica mais difcil. Mas os dois sexos so capazes de aprender as duas coisas. McGuinness 
acredita que as diferenas so devidas em grande parte ao fato de que a sociedade no reconhece 
essas diferenas de sexo e no ajusta os mtodos de ensino a essas diferenas. 
Baseado em todas essas pesquisas citadas acima e em muito mais evidncia no discutida aqui, 
Nash (1970) tem uma posio biolgica, de que a base para a diferenciao de papis masculino e 
feminino  fundamentalmente biolgica. Esta  mais 
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uma controvrsia na Psicologia do Desenvolvimento em que nos parece que a posio interacionista 
 a mais prudente.  possvel que alguns comportamentos sejam predominantemente aprendidos e 
outros predominantemente biolgicos. Porm o certo  que no herdamos comportamentos. 
Herdamos estruturas fsicas que podero facilitar a aprendizagem de comportamentos. Assim  que 
podemos especular que diferenas anatmicas e fisiolgicas nas estruturas cerebrais de meninos e 
meninas (comprovadas por estudos de Ford e Beach, 1951) talvez estejam associadas a maior ou 
menor aptido para a linguagem, maior fluncia verbal em meninas. Isto levaria a maior reforo de 
comportamento verbal nas meninas e assim j teramos os dois fatores interagindo. Mais uma vez 
insistimos na idia de que  intil tentarmos separar totalmente a atuao dos fatores biolgicos e 
ambientais.  de grande importncia tentarmos descobrir como se faz a interao, ou seja, que 
efeito tem determinado fator ambiental quando atua sobre determinada base biolgica, como salienta 
de maneira brilhante Anastasi (1958) no artigo clssico intitulado Hereditariedade, meio e a questo 
como. 
O assunto tratado neste captulo  de grande atualidade e relevncia para a sociedade atual, em que 
grupos feministas mais radicais questionam a desejabilidade da diferenciao de papis masculinos e 
femininos. Tradicionalmente, o comportamento desejvel e ajustado do ponto de vista psicolgico era 
considerado o da menina que brinca com bonecas e panelinhas, e o do menino que joga bola, brinca 
com automveis e revlveres. Estas crianas ter-se-iam identificado com o genitor do mesmo sexo, 
resolvido problemas edipianos e seriam os adultos tradicionais: o marido que trabalha e sustenta a 
famlia e a mulher que se realiza cuidando apenas do lar. Porm, uma vez que esses papis 
atualmente so questionados, comeando-se a valorizar a igualdade entre sexos, em que a mulher 
tambm se realiza profissionalmente e em que o marido compartilha de responsabilidades para com 
os filhos e o lar, a situao ideal da criana no seria aquela em que meninos e meninas brincam 
com os mesmos brinquedos? Este  um tpico bastante polmico, de natureza mais de valores e 
filosofia social, de forma que o abandonamos aqui, mas lembramos que  possvel que as noes 
sobre identificao, masculinidade e feminilidade sejam reformuladas num futuro prximo, tendo 
em vista essas mudanas sociais. 
